Sobre a Queda do Céu

A Queda do Céu — Palavras e um Xamã ianomâmi, não existe algo mais dramático e ao mesmo tempo poético que o título desse livro resultado da interação por três décadas entre o xamã ianomâmi Davi Kopenawa e o etnólogo Bruce Albert.

O impacto provocado ao finalizar sua leitura neste exato momento que escrevo esse texto no calor das emoções, só pode ser comparado ao que tive aos 20 anos após ler Tristes Trópicos de Claude Lévi-Strauss.

Os relatos de Kopenawa levam a refletir sobre os caminhos tortos de nossa civilização e como a “fome por mercadoria” arrasa e destrói nação inteiras. Como acontece neste exato momento com os povos Ianomâmi, dizimados pelas doenças dos brancos , pelos ataques genocidas do garimpo que não perdoa crianças e idosos e por uma série de políticas equivocadas de um Estado Nacional, cuja bandeira que representa “nossas riquezas” fala muito sobre sua construção enquanto sociedade predatória.

Sobre o livro digo a princípio que não é tão fácil iniciar sua leitura, ele é bem grande e tem mais de 700 páginas e ensaiei esse início algumas vezes e foram praticamente cinco meses desde que peguei ele em mão até sua conclusão ( culpa também de minhas loucuras de ler até 4 livros por vez). Acessar o pensamento sobre mundo a partir da perspectiva Ianomâmi, bem como as profecias xamânicas narradas por Kopenawa, não é uma tarefa fácil para quem está acostumado à construção narrativa ocidental e em princípio parece, confuso e às vezes repetitivo, mas cada “imagem de palavras” está lá por um motivo e uma vez que consegue acessar a cosmovisão dessa nação da floresta, um outro espaço/tempo se abre e imagens de um novo universo passa a povoar suas ideias e se torna uma experiência incrível.

Dividido em duas partes, a primeira parte traz o relato do narrador xamã Davi Kopenawa, um dos mais importante ativistas da causa dos povos originários, e sua cosmovisão de mundo e as relações com a sociedade brasileira e a segunda parte o relato detalhado do etnólogo Bruce Albert sobre o processo de três décadas para construção dessa obra colossal.

A Queda do Céu é por fim fundamental para quem deseja entender como a construção do Brasil foi um processo predatório de ocupação e destruição de vários povos e seus territórios e que, se continuarmos com essa “ fome por mercadoria” estamos sujeitos a ver o firmamento desabar sobre nossas cabeças e vão sobrar apenas os cacos de nossa civilização.

Nossa sobrevivência nesta terra depende de uma mudança drástica e urgente de nossa relação com a natureza, com os nossos pares, com os outros povos e com nosso modo de construir política e desenvolvimento.

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