
The Mountain é o nome do nono álbum da banda dos macacos animados do Gorillaz pelo selo próprio Kong. Confesso que na primeira audição achei o clima bem morno e insosso, talvez por conta do cansaço mental de uma semana corrida de trabalho junto do tilintar dos pesos da academia que insistiam em me atormentar mesmo abafado pelo fone de ouvido.
Uma semana após o lançamento, dei outra oportunidade de ouvir de forma atenta o novo trabalho e foi como subir uma montanha sonora cheias de climas introspectivos do rock, do pop, reggae, world music onde as cítaras de Anoushka Shankar se entrelaçam com a s guitarras inconfundíveis de Johnny Marr (a lenda sonora do The Smiths) e bits sônicos da música eletrônica.
O álbum chegou rápido ao topo das paradas britânicas derrubando do primeiro lugar da Billboard medalhões pop como Olivia Dean and Bruno Mars e como já faz parte da tradição dos lançamentos da banda conta com a colaboração de artistas tão diversos como o rapper argentino Trueno, o americano Black Thought, o duo Sparks e a estrela indiana Asha Bhosle. Um destaque também são as homenagens póstumas a lenda pós punk Mark E. Smith, ao ator Denis Hopper, o rapper David Jolicoeur, o baterista produtor musical Tony Allen entre outros.
Sobre as músicas que me pegaram e se tornaram trilha sonora dos últimos dias destaco Orange County, uma música mais alegre e dançante, acompanhada de um assobio daqueles que grudam na cabeça e que com certeza vai ser repetido muitas dentro de um capacete enquanto rodo nas correrias da cidade.
God of Lying foi o terceiro single lançado, e conta com a participação da banda indie IDLES com uma sonoridade que lembra um The Clash dos tempos áureos do Combat Rock, com uma cabulosa batida “cumbiera” e sons etéreos psicodélicos. A letra, que fala sobre as incertezas da vida, os conflitos contemporâneos e as manipulações da informação do mundo digitalizado, é um convite à reflexão para este jovem senhor com mais de meio século.
The Empty Dream Machine é cool, é rock indie, é hip hop, uma miscelânea musical triste, acompanhada lá no fundo de cítaras e flautas indianas, e tem a participação de nada menos que Johnny Marr, o homem por trás da sonoridade dos Smiths que também participa de outras músicas
Delirium é épica e na minha opinião a música mais legal do disco, começando misteriosa ela vai subindo o clima até ressuscitar Mark E. Smith, um dos meus herois musicais e o faz-tudo da banda pós-punk The Fall, morto em 2018. A música tem a atmosfera caótica do álbum de The Frenz Experiment do The Fall, com os refrãos ensandecidos do Mark gritando “delirium” em melhor estilo enquanto a letra diz: “Há pânico na montanha porque um novo Deus chegou, Ele não reconhece a si mesmo ou o que fez.”
Próximo ao fim do álbum, tudo vai ficando mais introspectivo, sutil como uma mente cansada admirando a paisagem ao fim de uma longa escalada à montanha embaladas pelo clima de Damascus, a musicalidade indu de The Shadowy Light com a característica voz da indiana Asha Bhosle,a misteriosa Casablanca, The Sweet Prince com mais uma participação de John Marr e Anoushka Shankar encerrado com The Sad God um fade out alegre que encerra o trabalho.
Para quem curte animação a banda também lançou o curta animado The Mountain, The Moon Cave and The Sad God, no melhor estilo old School, quadro a quadro dirigido por Direction: Jamie Hewlett, Tim McCourt, Max Taylor e uma dezena de colaboradores deixando qualquer possibilidade do uso de IA fora do projeto.
The Mountain é uma celebração à maturidade e fala sobre luto, sobre a vida, sobre política e sobre autopercepção, e atesta mais uma vez que a parceria entre Damon Albarn e Jamie Hewlett e o seu projeto Gorillaz que prestan há 28 anos bons serviços ao mundo da música.
Assita o clipe The Mountain, The Moon Cave and The Sad God:


